sábado, 20 de fevereiro de 2010

Destino escrito pelo acaso. Uma escolha ou uma conseqüência?













Fazer uma análise sociológica sobre a vida de qualquer pessoa não deve ser algo fácil, no entanto, deparo-me aqui com o desafio de fazer assa análise sobre mim mesmo e o que sempre acreditei que seria fácil, por achar que me conhecia o bastante, nesse momento me coloca sob prova.
Minha chegada a este mundo, onde a vida me esperava com seus desafios, deu-se em agosto de 1980, na localidade de Campos, algum lugar no meio dos secos e impiedosos sertões, no município de Irauçuba-Ce. De lá não me recordo muito e até onde sei devo agradecer por isso, pois, fugindo das adversidades daquele lugar, minha família mudou-se a procura de algum lugar que oferecesse ao menos água (como que seguindo os passos da família de Fabiano, personagem de “Vidas Secas” de Graciliano Ramos).
Sou o oitavo de uma família de nove irmãos, sendo quatro homens e cinco mulheres. Meus pais são protagonistas de uma história não muito diferente daquela vivida por muitos sertanejos, daqueles que Raquel de Queirós teve a oportunidade de ver na teoria e eu na prática. Analfabetos, pobres e alheios a qualquer noção de cultura, nunca puderam conhecer outro ofício senão o duro serviço da roça e dessa forma nada puderam oferecer aos filhos além do feijão e da esperança de que um dia as coisas iam melhorar (isso era o suficiente para nos mantermos de pé). Cresci vendo meus pais pedirem a um e a outro fazendeiro da região, um local onde pudessem construir um abrigo para a família, onde também pudessem cultivar um roçado, a fim de tirar dali o necessário para a nossa sobrevivência. Nem sempre essa busca foi fácil (na verdade acredito que realmente nunca foi fácil). E assim íamos seguindo em frente. Meu primeiro contato com a escola deu-se quando eu completei os seis anos de idade. Lembro-me que até então só havia ouvido falar em escola através de minha irmã Angelita, que mesmo superficialmente, era a única dos nove irmãos que já havia vivenciado essa experiência. A ela, eu fazia mil e uma perguntas, mas ela sempre me respondia com monossílabos. Não sei se era falta de paciência ou se realmente ela não havia aprendido o suficiente para responder às minhas perguntas.
Voltemos então à minha primeira experiência com o fantástico mundo que eu estava prestes a descobrir. A escola não era exatamente uma escola convencional. Funcionava na casa de uma comadre de minha mãe, a professora Selma, na sede de uma das fazendas da região. Lá estudavam crianças de todas as idades e de vários tamanhos, todos os filhos de agricultores pobres das redondezas e, independente da idade todos começaram juntos, logo a partir da alfabetização (nossa turma foi a primeira e a única da escola). A maioria estava ali não para estudar, pois não tinham a mais vaga idéia do sentido dessa palavra. Estavam ali pela curiosidade e muitos fugindo da fome de casa, iam por causa da merenda que muitas vezes era só rapadura. Não tínhamos estrutura nenhuma. Era uma cartilha para cada família e se na casa tivessem dez alunos, a cartilha serviria para os dez e o mesmo acontecia com os lápis de cor, borracha. Eu estava no lucro, pois só tinha que dividir com Rosângela, minha irmã mais nova. Nossa professora só havia estudado até a 4ª série do primeiro grau e em situação semelhante àquela que vivenciávamos. Devido às inúmeras dificuldades, muitos abandonaram a escola assim que passou a curiosidade e voltaram a trabalhas na roça, traçando ali seu destino e condenados a perpetuarem a pobreza de seus antepassados. Felizmente, eu não havia percebido essas dificuldades. Eu tinha uma sede inexplicável pelo conhecimento e aprendi a ler praticamente sozinho, pois em casa não havia ninguém que participasse do meu mundo, apesar de sentir por várias vezes a vontade de minha mãe de me ajudar. Infelizmente não era possível, pois sequer conhecia a letra “a” e o modo que ela encontrava para incentivar, era cobrindo-me de elogios.
Mais tarde, quando passei para a 1ª serie, as dificuldades aumentaram. A escola mais próxima ficava há cerca de doze quilômetros e eu e um pequeno grupo de alunos precisávamos caminhar cerca de duas horas sob um sol escaldante, em plena zona rural (em tempos de seca era pior ainda). A escola existia, porém os obstáculos para chegar até ela aram muitos e novamente muitos abandonaram nos primeiros meses. Só mais tarde, através de Pierre Bordel eu viria a começar a entender esse processo de eliminação, ao qual, inconscientemente, os estudantes de famílias pobres estão expostos, desde o início da vida escolar.
Em 1989, mais uma vez fugindo da seca que assolava o sertão, migramos novamente. Dessa vez iríamos tentar a vida no litoral, onde havia promessas de novas oportunidades. Aportamos em Paracuru-Ce, e ali, pela primeira vez e já aos nove anos eu tive a oportunidade de estudar em uma escola de verdade. Pequena, com cerca de dez salas, mas era uma escola de verdade tinha até banheiro e cantina. Não fui muito bem recebido, afinal, eu era o patinho feio da escola. Recém-chegado do sertão, a aparência e os modos me denunciavam. Entrei em depressão e tentei sair de lá (por sorte não o fiz). Foi ali que comecei a entender para que servia a escola: era para ensinar a ler, escrever e aprender a tabuada. Na verdade eu havia crescido imaginando que seria isso, mas os professores me deixaram certo disso. Nenhum deles imaginava que sairia dali algum gênio. Naquele momento, concluí que aquele era o propósito da escola. Como poderia pensar de outra forma? Como pensar em estudar para ser médico, advogado, engenheiro, etc? Eu nem sabia que pobre poderia se tornar algo do tipo. Na minha cabeça eles “já nasciam feitos” (mais tarde eu viria a constatar isso). Meus pais eram analfabetos, meus irmãos semianalfabetos (se no Brasil, o conceito de analfabeto é aquele que consegue ler e escrever um bilhete, isso eles não eram. Dois estudaram até a 4ª série, os demais aprenderam a ler e escrever o nome sem jamais terem ido a uma escola e um deles até hoje nunca aprendeu a escrever o próprio nome) e eu não tinha nenhuma referência que me remetesse a outro pensamento. Quando conclui a 8ª série, surgiu o que seria para mim o meu maior desafio e para o qual eu não estava preparado: a única escola da cidade que oferecia o 2º grau, o Centro Educacional Pe. João da Rocha, filiado à CNEC - Campanha Nacional de “Escolas da Comunidade”, era particular e cobrava na época o equivalente a um terço do salário mínimo. Meu pai não ganhava nem isso e seguramente não poderia me proporcionar uma escola daquelas, freqüentada na sua grande maioria, pelos filhos das famílias ricas da cidade. Mesmo sabendo da resposta que receberia, resolvi me aventurar a pedir ao meu pai que pagasse. A resposta foi a já esperada: você não queria aprender a ler e escrever? Pois muito bem, agora que já aprendeu já é hora de parar e me ajudar a sustentar nossa família. Nunca culpei meu pai por isso. Não podia cobrar dele algo que ele não podia me oferecer econômico e culturalmente. Em relação a isso ele nada tinha a me oferecer. Só havia uma solução caso eu quisesse continuar: começar a trabalhar. Mas, em que se eu, ainda com quatorze anos nada sabia fazer? Nesse momento surgiu na minha vida aquele que seria minha primeira referência de vida, o Sr Maurício Masih. Ele era, na época, professor da Universidade Estadual do Ceará – UECE e proprietário de uma casa de praia na cidade e me ofereceu um emprego de jardineiro. Na verdade ele sabia que eu não conhecia o ofício, mas quando soube dos meus motivos resolveu me dar uma oportunidade. Foi com ele que aprendi o que era vestibular, faculdade e também que existia a possibilidade de eu chegar até lá. Não sei se ele tem consciência da importância que teve na minha vida. Com ele trabalhei três anos, conclui o 2ª grau na tal escola e por incentivo se Seu Maurício resolvi vir para Fortaleza. Eu queria tentar vestibular, mas novamente estava entregue ao acaso ao qual minha vida sempre esteve entregue. Ao contrário de muitos que haviam sido preparados para isso, eu não sabia o que fazer. “Os alunos bem nascidos, que receberam da sua família um censo perspicaz do investimento, assim como os exemplos e conselhos, estão em condições de aplicar seus investimentos no bom momento e no lugar certo, ou seja, nos bons ramos de ensino (...). ao contrário, aqueles que são procedentes de famílias mais desprovidas (...), muitas vezes, entregues completamente a si mesmos, desde o fim dos estudos primários, são obrigados a se submeter às injunções da instituição escolar ou ao acaso para encontrar seu caminho num universo cada vez mais complexo e são assim votados a investir a contratempo e no lugar errado, um capital cultural, no final de contas, extremamente reduzido (Bourdieu, 1992). Foi exatamente isso que aconteceu. Sem nenhuma noção do que fazer tentei vestibular para Administração em uma faculdade particular e por ter ficado entre os dez primeiros, ganhei uma bolsa integral, mas logo no 1º semestre reprovei uma disciplina e perdi a bolsa, sendo obrigado com isso a largar a faculdade. Tentei vestibular pela primeira vez na UFC e na UECE, também para administração de empresas e reprovei, como era de se esperar. O conteúdo da prova era algo totalmente novo para mim. Sem dinheiro para me preparar, tentei por mais duas vezes e após ter reprovado novamente, decidi que não perderia mais tempo e que só tentaria para um curso com um nível mais baixo, onde eu teria mais chances de aprovação.Em 2004, fiz vestibular para Geografia, na UFC e fui aprovado.
Adoraria dizer que fiz prova para Geografia por gostar e me identificar com o curso, porém não é verdade. Fiz por ser mais fácil, assim como fizeram e fazem muitos dos que estão nos cursos de história, geografia, pedagogia, etc. lógico que eu preferia estar fazendo uma faculdade que me oferecesse maiores garantias, como: medicina, direito, engenharia, etc. Mais, ao contrário dos filhos de famílias em condições mais favoráveis, eu não fui preparado para isto e nunca pude contar com nenhum investimento, nem econômico nem cultural. Encontrei minha primeira referência aos quatorze anos de idade e mesmo assim, era uma pessoa estranha com a qual eu raramente tinha contato.
Pretendo me dedicar muito a minha “escolha” e graças a Deus, tive a agradável surpresa de encontra no departamento de geografia o professor Amaro de Alencar, que mesmo sem saber vem se tornando para mim, uma referência dentro do curso. Foi através dele, na disciplina de geografia agrária, que me encontrei discutindo temas sobre a reforma agrária e os movimentos sociais no campo, e para minha surpresa, talvez por que o cenário em questão me remete a minha infância, me vi “apaixonado” pelo assunto. Em aulas de campo e em visitas aos acampamentos e assentamentos, me vejo em cada uma daquelas pobres casas e vejo meu pai em cada rosto daqueles homens miseráveis que assim como ele, nada têm para oferecer aos seus filhos. Espero um dia poder de alguma forma poder ajudar àquelas pessoas, com as quais tanto me identifico.
Hoje, felizmente começo a entender o processo de eliminação ao qual sempre estive exposto e infelizmente já não dá para mudar o passado, porém, espero poder escrever o futuro do meu modo, se isso for possível. Espero adquirir maturidade para fazer as minhas escolhas e aproveitar as oportunidades do modo mais racional possível.

Por falar em me expressar...

Da última vez que escrevi algo que realmente me empolgasse, até hoje, lá se vão alguns dias multiplicados por outros tantos. Na faculdade de Geografia, fiz uma disciplina chamada "Estudos Sócio-Culturais da Educação" e a professora lançou como proposta de um trabalho o seguinte tema: "Faça uma análise sociológica a seu respeito!". A princípio eu me perguntei o que ela queria com aquilo. "Análise sociológica"...era tudo tão vago. após as explicações dela tudo ficou mais claro. A proposta era simplesmente fazer com que a gente se visse desde a infância até os dias atuais e o que nos levou a escolhaer exatamente a Geografia como carreira. O desafio dela era mostrar que em regra nos não tínhamos escolhido a Geografia e que essa "escolha era fruto de uma série de fatores combinados. Confesso que está sendo complicado escrever alguma coisa e lembrar de todas as novas regras da língua portuguesa. Estou apelando para um site. aqui vai a dica: http://www.reformaortografica.com.
Como eu estava dizendo, o desafio foi proposto e depois de pensar por uns três dias sobre o que eu ia colocar nesse trabalho, apanhei papel e lápis e mãos à obra. Aquilo que me parecia tão difícil acabou fluindo tão bem que no final tive que eliminar boa parte do trabalho pois eu já havia ultrapassado e muito o tamanho proposto. Entitulei o trabalho de "Destino escrito pelo acaso. Uma escolha ou uma consequência?". Bom, parece que no fim tudo deu certo. passei na disciplina e guardo esse pedacinho da minha história que coloquei naquela trabalho com muito carinho.

Engatinhando...

De repente, assim do nada, resolvi começar a construir um blog. Noite de sábado, véspera da prova do centro de línguas da UECE e eu deveria estar estudando. Pois é, deveria. De repente deu vontade de escrever, coisa que aliás não fazia há muito tempo. Acho que de um modo geral as pessoas estão deixando de escrever, de produzir. Lembro que há alguns anos eu tinha o hábito de escrever para as namoradas, amigos...me fazia tão bem. era impressionante como eu conseguia por no papel tudo que eu não conseguia expressar com palavras. Acho que é isso. Estou precisando me expressar e nada melhor do que um blog para me servir de inspiração.